Antes do Amanhecer

Acordar cedo é uma delícia. Caminhar, ler, tomar café olhando para o nada, andar livre pela casa e ver o dia começar, numa cumplicidade que parece fazer aumentar o tempo. Ainda tem aquela brisa geladinha que rodopia a gente, quando a janela se abre! Essa fotografia, só de manhã e com tudo em ordem. Quando as coisas estão meio lascadas, essa sequência muda um pouco, ou muito.

Não tenho relógio, mas vou deduzir. Nem seis da manhã e os pensamentos já se batiam para sair, sem paciência para esperar os dias que levam para restaurar, quando tudo decide mudar. Um conflito que dá uma tremedeira rasa que não deixa caminhar, derruba o café na pia e, com a janela fechada, faz a brisa dar meia volta. Cedinho e já dá para ver e o estrago que causo, somente a mim, enquanto os outros dormem.  Acordar cedo na desordem aumenta a obrigação de agir. “Deu de estória! “Vou visitar a Irmã Silvia.

E quanta coisa cabe de seis às oito:  banho, visitas, carona para buscar um carro emprestado, conversar com a amiga que emprestou o carro. Partiu, Hospital São Julião. Oito e cinco, na sala com as portas abertas, ela no computador com seus quase noventa anos, entrei meio que disfarçando o cansaço do caminho que fiz para chegar ali. 

Ela virou, sorriu e perguntou meu nome. Respondi – Sou a Linda. Vim te abraçar e dizer que admiro seu trabalho nesse hospital e na vida. Agradecer por dedicar sua existência a algo maior que viver somente para si mesma. Ela olhou, balançou a cabeça, tipo “deixa disso, menina”. Sentindo um tremor diferente e mais profundo, continuei – Vim me colocar a disposição de trabalho, ando com a cabeça muito cheia de mim e isso não está me fazendo bem. Gosto de escrever, posso somar contar as histórias daqui. Nem sei muito o quê vim fazer, mas estou aqui. Disse isso com o coração na mão.

Ela – Você conhece a história do hospital? Silenciosamente, andou pela sala até a estante, pegou uma pasta dessas de plástico e, foto a foto, me revelou com poucas palavras o significado de muita coisa.  Na terceira foto, chorei. Não consigo descrever, acho que nem precisa. Era um lugar de abandonar gente, onde a paz não chegava e a dor fazia sentinela. Em dez minutos vi, na mesma pasta, o melhor e pior do homem. 

Também vi o amor. Esse que pulsa e transforma, rompe a dor e mostra a paz. Vi a Irmã Sílvia e sua entrega maravilhosa, a serviço de. Vi uma escolha, o trabalho de muitos e o tempo, que fez um lugar de pessoas para pessoas, na regência do que nos torna. Hoje, suas árvores gigantes fazem sombra para as doenças que continuam ali, agora cuidadas pelo amor que faz a cama, todos os dias, em lençóis limpinhos.

Na rodovia, de volta para casa, senti que a desordem da minha manhã era falta de amor por mim mesma e isso já não me importa. Só sei que quando o amor atravessa a dor, faz tremer diferente, de dentro para fora e isso é libertador. Já são dez da manhã e eu tenho muita coisa a fazer. Isso sim, me importa. Obrigada, Irmã Sílvia.

Ainda bem que acordei cedo. 

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3 Comments

  1. Gilson Espindola

    Muito bom Linda!! Descobri também que só se faz bem estando bem!! Por isso “de dentro pra fora”! Primeiro eu preciso estar bem pra ajudar alguém!!!👏👏👏👏❤️😘

  2. Muito bom Linda! Amei!

    1. Gysélle Tannous

      Que bom Linda querida, irmã Silvia é uma inspiração…! Das boas!! E você que já é inspirada e sensível às boas causas, fica ainda mais poderosa trazendo inspiração ao mundo, pela sua escrita. Viva!!

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